31.3.25

Exame de consciência


Não podia apontar o dedo.
Ela própria,
na devoção descrente e ritual
de quem faz das palavras lugar de trabalho,
não era senão
um epígono da criatividade do Ocidente,
a manifestação atávica do poder normativo
do heteropatriarcado branco - eram estes
os termos, não eram?
Restava-lhe assumi-lo, só,
na rendição vergonhosa que,
como Síndrome de Estocolmo,
a fazia falar a língua do carcereiro,
converter-se aos seus deuses e oferecer-se
na cama. Seria esse o seu sacrifício.






27.3.25


O terror instrumental do imaginário colectivo

Via que havia sangue
a escorrer-lhe dos olhos. 
Se vinha de dentro ou de fora,
dependia apenas da perspectiva.



26.3.25


Consciência de si

Talvez (mas como medir
o peso de um talvez? Afirmação de fé,
de dúvida, afirmação apenas
da falta de fé que permitiria dizer que sim
e que sim, de olhos fechados e coxas
abertas?) a Fenomenologia do Espírito
fosse a definitiva
revelação do sentido do mundo.
Uma epifania dos olhos, dos dedos e da língua,
uma forma frágil e final de consciência cega.
O desejo, supunha. A existência do outro
como carne e como coisa.
Nem ponto de partida nem lugar de chegada.




17.3.25


Lamento romântico

Como se pudesse
apreender o mundo a partir dos seus olhos.
Arrancar os que tinha e aceitar como seus
aqueles através dos quais ele a vira
pela primeira vez.
Não queria partilhar a perspectiva
(assumir o seu lugar e a sua fé, como se
com isso
pudesse partilhar-lhe o nome e a condição),
mas recusar a ideia de perspectiva.
Não queria ver como ele, queria ser ele.
Fazer dos seus olhos os olhos, 
do seu mundo a própria
existência do mundo. Ao mesmo tempo
coisa e metáfora da coisa,
nome e nome que se fizesse corpo e se
substituísse a si mesmo.





13.3.25


Hauntology

Falava de fantasmas, de facto.
Do tempo (o out of joint
de todas as formas de consciência:
o espanto, o medo, a vergonha,
o amor), do não,
do já não e do ainda não.
Do nunca como eufemismo dos olhos
e da ponta dos dedos — aquilo 
que os ingénuos tomavam por poesia.
Da sombra e da assombração. Da luz.
Do deslumbramento. Do poder ter sido.
Corpo, presença, ou nome no qual
não coubesse o mundo.




6.3.25


Lamento e profissão de fé de verdadeira vocação poética de uma alma excluída da glória precoce das vinte e cinco fêmeas antologiadas

Saberia ser o que lhe dissessem:
ser poeta e ver mais longe,
mas não tão longe que 
avistasse a vertigem (aceitaria a mão
se lha estendessem),
recitar uns versos, a voz impedida,
mas sem mostrar as lágrimas (não queria
parecer fácil),
entreabrir a blusa até ao terceiro botão,
(mas não mais do que isso, não era oferecida).
Acreditava na poesia, 
entregaria o resto à imaginação.
Nunca é fácil ser só o que se é.
Recolheria a pose, o estatuto,
a dádivas de mel dos seguidores,
nomeações para prémios,
convites para colóquios, feiras e festivais,
— aceitaria o estatuto que lhe concedessem:
clandestina, refugiada, pária, apátrida.
Não faria diferença, não era ninguém,
esconderia as dúvidas e a cama vazia
(aí onde, apenas aí, havia um vislumbre
de profundidade), e talvez então
tivesse direito a ver o seu nome numa hantologia.




4.3.25


Veículo semiótico de penetração profunda

Ninguém ignorava do que se tratava.
Era uma coisa, carne, 
não um conceito.
Dispensava o calão,
mas era claro o falocentrismo
(o falhanço, de facto,
embora isso fosse redundante)
das palavras enquanto
instrumento de emancipação.
Far-lhe-ia falta, a fome.




1.3.25


O homem que tentou matar Valerie Solanas

Vivia de expedientes.
Supusera que o assassínio da autora do 
SCUM Manifesto o tornaria famoso. 
Não suportara o que lera:
ser homem era ter inveja 
dos órgãos reprodutores da mulher, 
vulva, útero, mamas.
Ser homem era ser
a escumalha da escumalha.
A deficiência era constitutiva.
Não sabia o que fazer.
Poderia procurar uma fêmea,
mergulhar-lhe entre as coxas
e desaparecer como desapareceria
tarde ou cedo o género masculino,
ou poderia contra-atacar.
Esperou-a à porta da editora,
acompanhou-a até ao interior do edifício
e tirou a arma.
Três tiros, enquanto ela estava ao telefone.
Falhou os dois primeiros,
o terceiro atravessou-lhe o corpo.
Levaram-na para o hospital. Sobreviveu.
Ele entregou-se ao final do dia.
Confessou o crime.
Dera-se a si próprio nome de Andy Warhol,
era um falhado.




26.2.25


Dispositivo semiótico autónomo

Não duvidava do que se tratava.
Já ouvira
chamar-lhe outras coisas
(isso, aquela coisa, a condição,
o espaço do prazer ou do pecado,
o locus horrendus da imaginação).
Sublinhou a lápis.
O calão costumava
ser menos sofisticado. 





20.2.25


Levantamento gratuito em loja

De acordo com Manuel Alberto Valente,
editor e antologiador de mulheres
(para além de outras valências
na sua relação com o feminino),
a qualidade média da poesia
escrita por mulheres
nascidas depois de 74
seria, em linhas gerais, superior
à escrita por homens
nascidos no mesmo período.
A qualidade média, em linhas gerais,
superior. Um juízo justo que já tardava.
Mas a qualidade de quem, de facto?
Das palavras (sempre modestas,
mas talvez alguém pudesse pesá-las)?
Das mulheres
(medianas, diziam-nos)? Da média
(leia-se mediocridade) dos editores,
conformes à mediocridade do próprio país?
Mas a mediana, portanto, da boca até
ao côncavo das coxas.
Um critério estético, um princípio moral.
O génio e a excepção, todas sabiam,
estavam reservados para os homens.




14.2.25


Três copos de cerveja

Dava depois por si a perguntar porquê,
como se o porquê,
a triste e torturada explicação,
pudesse por si próprio preencher-lhe
o vazio.
Substituir a falta pela sua imagem,
a coisa pelo nome,
e encontrar sentido no
encadeado de acaso
que a tinha conduzido até ali.
Até ser quem era.
Seria essa a
admirável maravilha da humanidade:
o modo como cada coisa  
acabava transformada
na sua própria caricatura.




7.2.25


No medical evidence

Sete recém-nascidos em cuidados neonatais.
Mortos.
Outros sete homicídios na forma tentada.
Quinze penas de prisão perpétua.
Um acto de uma crueldade premeditada e insensível,
segundo o juíz que a condenou. E ainda:
Uma acção totalmente contrária aos instintos humanos
e ao cuidado devido aos bebés.
Os instintos humanos, retinha. 
Lucy Letby, enfermeira
num hospital do norte de Inglaterra, 
trinta e quatro anos,
a primeira página dos tablóides,
o rosto do mal, sem remorsos nem atenuantes,
na perversão de quem não responde
nem respeita o mais básico dever de uma mulher,
aquele que nos dita 
a hospitalidade do corpo e o cuidado das crias.
I’m innocent,
gritou, depois de condenada.
Quinze penas de prisão perpétua, mas,
de acordo com um painel de peritos em neonatologia,
nenhuma evidência clínica
de que a acusada tenha assassinado um só dos bebés.




31.1.25


A “grande poesia”

Autrement dit,
escreve Derrida, numa nota à margem
ao seminário Répondre — du secret,
1991-1992
(e onde estava ela, então?
Que infância, que candura,
que estado duro e quase
pré-verbal
se abrigaria ainda nos seus olhos?).
Autrement dit, pois,
ce n’est pas la confession d’une faute,
c’est la confession comme faute: 
la trahison consiste à se confesser.
Supunha saber ao que ele se referia.
Falava de traição como quem teme
trair-se a si mesmo. Na língua e pela língua,
nas palavras e pelas palavras,
no som, na grafia, na gramática,
no espaço intermédio
entre a garganta e o céu da boca. Lábios,
pele, pregas, dobras, invaginação
dos tecidos moles.
Um tempo pago à peça, um intervalo,
lugar de passagem para homens, animais
e criaturas conscientes.





28.1.25


Na Sua luz, vemos a luz

The sexual act cannot be made
into an egalitarian pleasuring party
(de acordo com as palavras
—The Guardian, 24 Jan 2025—
do pastor Doug Wilson,
teólogo fundamentalista da Christ Church, 
Idaho, um representante consciente
e orgulhoso daquilo que
marxistas, feministas e
outras decadentes ideologias da emancipação
designariam por fanatismo.
Um reaccionário, para dizer o mínimo).
A man penetrates, conquers, colonizes, plants.
A woman receives, surrenders, accepts.
Poderia traduzir: a mulher recebe, rende-se,
aceita — sujeita-se, subordina-se,
submete-se, subjuga-se
ou outros sinónimos da repressão.
O prazer, se de prazer ainda se tratasse,
estaria apenas do outro lado:
do lado de quem penetra, 
conquista, coloniza, invade.
Do lado de quem domina, sujeita, subordina,
submete, subjuga, e se perpetua
no corpo alheio, perpetuando a opressão.




17.1.25


A moral como uma disciplina da anatomia

Una cosa 
(afirma Beatriz de Vicente, Madrid,
56 anos, advogada, defendendo 
o casamento aberto)
es abierta entre las piernas
y otra es abierta en el corazón.
Lera e engolira em seco.
Não o teria dito, mas não o questionava.
Tal implicava, supunha,
separar o corpo do coração,
a carne do afecto,
libertando as coxas
para um prazer sem culpa nem compromisso.
Talvez, enquanto penalista,
essa mulher soubesse que a melhor mentira
é aquela que se expõe na plena luz do dia.
Aquela de quem somos
a segunda pele.
E do resto,
do ciúme e da ameaça de solidão,
 (A veces duele, a veces rompe)
é desviar os olhos e não fazer perguntas:
No lo sabes, no lo sabes, no lo sabes.




6.1.25


Reciprocidade

E o que é que queria que ele
quisesse dela? Que a quisesse.
Que a visse não a ela, mas a ela como
cada uma das mulheres.
Que a fizesse
(boca, coxas, mamas, cona,
— tudo o que pudesse ser tocado, tudo
o que pudesse ser mordido, tudo o que
pudesse ser penetrado, a pele, os poros,
as pupilas) carne de cada corpo
que tivesse visto, que a imaginasse
e a fizesse parte
de uma noite de fêmeas, uma época,
uma idade
da qual ela fosse a presença plena,
tal como cada lâmpada
é presença da luz.
E queria que ele soubesse que, dele, 
esperava sobretudo o domínio da língua.
Pedia-lhe que evitasse os lugares-comuns.




28.12.24


A linguística como disciplina moral

O signo como
o casamento-padrão:
 a unidade linguística mínima
— um significante, um significado,
indissociáveis e ligados por
uma relação arbitrária.




26.12.24


Symbolon

Não haveria a outra metade.
A ter existido (algum dia,
algures, nos olhos, na língua,
nas dobras da saia
ou no côncavo das coxas),
ter-se-ia perdido
antes de chegar a dividir-se.
Tal divisão (equitativa, desigual?,
a quem caberia a parte do poder?)
não seria mais do que
o mito fundador do modelo-padrão
— o do género, o do comportamento, 
o das expectativas:
aquele que se encobre
na plena luz do dia 
e subordina a boca,
a alma e os outros orifícios.



24.12.24


Luigi Mangione

Nenhuma morte é justificada,
mas as de todos
fundam as de alguns.
E o que é que esperavam?
Que baixasse a cabeça, arrastando
os pés
a caminho do matadouro?
A justiça
(aquilo que designam como
justiça)
é o dolo que cola a moral burguesa,
aquela que nos tolhe a mão,
nos tapa a boca e dita a culpa
com o dedo apontado.
É preciso cortá-los,
o dedo e a culpa.
Atirar a matar.
Nunca há segunda oportunidade.